Até 1990 chamado Recioto della Valpolicella Amarone, este é o grande vinho veronese e, sem favor algum, um dos tintos mais importantes da Itália. Classificado como DOC (Denominazione di Origine Controllata) desde 1968, passou para a categoria DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita) por decreto de 24 de março de 2010. De acordo com a legislação, as variedades autorizadas para a elaboração do Amarone são as seguintes: Corvina veronese: de 45% a 95%, permitidos aí até 50% de Corvinone; Rondinella: de 5% a 30%; outras uvas tintas cultivadas na província de Verona: máximo de 15%. São as mesmas variedades do Valpolicella, porém com uma diferença marcante na maneira como são manipuladas: depois de colhidas perfeitamente maduras – às vezes até alguns dias antes de atingirem o máximo da maturação – as uvas são postas para secar de três a quatro meses, num processo conhecido como appassimento, e só então vinificadas.

 As origens desse método são objeto de discussão, mas a maior parte dos historiadores acredita que era assim que os antigos Romanos produziam seus vinhos. Em suas colônias no sul da Itália, eles costumavam deixar as uvas secarem no próprio vinhedo. Quando se deslocaram para o norte, o processo tornou-se inviável, devido às baixas temperaturas e à umidade. Passaram então a colher as uvas e colocá-las para secar em sótãos, em geral penduradas em vigas no teto. Mais tarde, essa técnica foi modificada na região do Valpolicella, com os cachos inteiros mantidos sobre esteiras e, mais recentemente, em caixas de plástico. O local onde ficam as uvas é chamado de frutaio.

Durante o período Romano, o vinho assim produzido era sempre doce (do tipo chamado hoje Recioto della Valpolicella). Mas alguns acreditam que mesmo os vinhos secos, naquela época, eram elaborados a partir de uvas semi-secas. Na região de Verona, porém, circula uma história segundo a qual o Amarone seria o resultado de barricas de Recioto esquecidas durante muito tempo e que, por isso mesmo, tiveram seus açúcares inteiramente esgotados, transformando o que deveria ser um vinho doce (o Recioto) num vinho inteiramente seco (o Amarone). Como que confirmando essa versão, os mais velhos costumam chamar o Amarone, num dialeto local, de “Recioto scapà” – algo como “um Recioto que deu errado”. Certamente, os orgulhosos produtores de Amarone não gostam sequer de pensar que seu grande vinho pode ter nascido por acaso, fruto de um engano!

A verdade é que o doce Recioto sempre foi o vinho que o veroneses serviram a seus convidados em festas e depois do jantar – aliás, um papel que continua a desempenhar hoje. Até o final da década de 1940, o Recioto era mais popular que o Amarone. Segundo a teoria de Sandro Boscaini, presidente da Masi, essa preferência pode ter sido causada pelas escassas fontes de açúcar existentes na época, uma carência que se agravou ainda mais durante os tempos difíceis da Guerra e do pós-Guerra.

Foi só a partir dos anos 1950 que o Amarone saiu da sombra do Recioto, e esse fato tem uma data histórica: 13 de abril de 1953. Foi o dia do aniversário de 80 anos de Alberto Bolla, filho do fundador da conhecida vinícola. Em homenagem a ele, a empresa engarrafou – pela primeira vez – a safra de 1950 de seu vinho preferido, o Amarone. Pouco depois, Bolla começou a exportar para o mercado norte-americano. O resto, como se costuma dizer, é história…

O Amarone della Valpolicella é especialmente indicado para grandes assados, pratos complexos de carne vermelha e de caça, e se entende muito bem com queijos fortes curados. O doce Recioto della Valpolicella fica ótimo com panettone e pandoro (uma espécie de pão doce), doces de frutas secas e de castanhas (inclusive marron glacé); alguns o recomendam também com sobremesas à base de chocolate.